sábado, 23 de junho de 2007

ECLESIASTES: 2, 25

"Pois quem pode comer, ou quem pode gozar melhor do que eu?"

Ok, esperar é uma droga. E gozar? Gozar também é. Não fosse o Homônimo, estaria sendo cometida uma heresia. “Queres esperar ou gozar?” – A resposta é singelamente óbvia. Sem falcatrua.
A ser perguntada, portanto, a uma sexóloga, beira o ridículo. Mais ridículo é o alarde. Típico da civilização contemporâneo-ansioso-frigido-anorgasmática. Um desbunde para o mercantilismo impresso. Gozar é doloroso aos impossibilitados.

6:00 h da manhã, aeroporto. O “cidadão incauto”, fragilizado pela sua postura consumista melodramática, chega ao guichê de embarque. Há meses que a imprensa, vampira-do-lugar-comum, anuncia filas métricas de aguardo paciente. Então, o desavisado consumidor percebe o lag medonho de seu embarque. Eis que broxa.
Broxar, no sentido menos restrito da palavra, é não ter atendido, momentaneamente, o objetivo final do seu intento. É ter de esperar. Esperar! Broxar, tirando as neuroses primárias, nunca foi sinônimo de impossibilidade, tampouco relega o broxante à categoria anedônica. Não costuma matar ninguém. Esperar também não.
Aos poucos, cria-se uma imbecil fila defronte ao mesmo guichê. Duas moças (sempre morenas-claras de fala mansa e sorriso canastrão) são afrontadas por uma horda miserável e faminta por sangue e colo de mamãe, grunhindo palavras de ordem e idologias cafonas. “que voem privativo então!”. Mas há energia... Energia que não muda. Energia que não expande. Energia que não goza.

Sexóloga. Cinqüenta poucos anos. Aguardando vôo. Atrasada, como todos os broxinhas. Holofotes, luzes, microfone (instrumento fálico que provavelmente compensa a mediocridade neocortical do entreveristador). Afinal, que resposta esperavam? A cura do mal? O paradeiro do Osama? A resposta definitiva aos interesses angustiantes dos passageiros?
“Relaxa e goza” Period . E a ira pseudo-cristã tomas as rédeas.


Além de praguejar, xingar, esculhambar a moral da mãe dos atendentes dos aeroportos;
deve haver algo mais nobre a ser feito. Exemplos? Ler um livro. Gozar. E gozar bonito.
Quantas ovelhinhas aéreas ocupam seu tempo lendo livros? E escrevendo livros?
Praguejar, praguejar e praguejar. Ainda se gozassem! Sem chance.
Maior terminal aéreo do país. Milhares de sombras humanas ali se arrastam. Culpam o mau tempo. Culpam a sorte, culpam o Lula, FHC, aqueles tanto políticos, pela sua falta de polidez, pragmatismo e civilidade. Difícil é enxergar a mediocridade da culpa. Foi-se a varíola, encabeçou-se o vírus mais grave para o Homem: o dedo indicador, sempre pronto a fulminar acusações sumárias. Bem coisa de broxa.
Maior terminal aéreo do país. Quantas línguas faladas? Quantas oportunidades rondando, quantas conversas bacanas, quanto a se ver, se aprender. Não. Quer-se a pequeneza do pacote turístico paga em 24 prestações e tem de ser AGORA! Parafraseando o mestre Marcello Guedes de Castro: “EU PAGUEI, EU QUERO!” – é claro que quer. Todo mundo quer alguma coisa.

Está atrasado, vai fazer o que? Gritar, espernear, morder? Curiosamente, os usuários do caótico sistema aéreo de um país cronicamente caótico em sua história, usam a desorganização para combater o que? A própria desorganização. Não que saibam disso, está claro. Se tivessem noção das suas atitudes imaturas, impositivas e pouco assertivas ( cidadãos de um país igualmente imaturo, impositivo e inassertivo), morreriam de vergonha, reação típica pós-broxada. “Isso nunca aconteceu comigo antes” – é claro que não.
Sentir raiva e indignação sobre um comentário tão simples, reflete bem a realidade do brasileiro médio: carente, irritado, ignorante e incapaz de pensar por si mesmo. Incapaz de relaxar e gozar, porra! Os semanários caça-níqueis agradecem. E a Pfizer também.

3 comentários:

She Python disse...

eita... não quero falar no apagão aéreo... não quero falar na marta suplicy... não quero falar em 2 milhões e vaquinhas de ouro... não quero falar!!!!!!
em viagra também... nem em cialis... nem em levitra...
ui...:/
chaga de prozac e que se foda o platão...
kkkkkkkkkkkkkk

Panydetron disse...

Ao contrário da minha suposição de que as pessoas nascem com um dom relativo para decorrer horas e horas:o que está dentro, fora e ao redor delas...acho que voce escreve tao perfeito que desconhece regras , foge a princípios e se esconde em cada entrelinha...e é isso que torna seus textos interessantes e originais!

She Python disse...

mais mais mais??? never stop... u know this!